Ela não se apresenta como ansiedade

Um adulto ansioso costuma conseguir nomear o que sente. Uma criança, não. O vocabulário emocional ainda está em construção, e o que existe é o corpo e o comportamento. Por isso, os sinais mais frequentes são indiretos.

O que é próprio do desenvolvimento

Nem todo medo é sintoma. Medo de separação em crianças pequenas, medo do escuro em idade pré-escolar e preocupação com aceitação social na adolescência fazem parte do desenvolvimento típico. A avaliação considera a proporção em relação à idade, a duração, a intensidade e, sobretudo, o prejuízo funcional: a criança está deixando de fazer coisas por causa disso?

Como conduzo a avaliação

Converso com a família e com a criança ou adolescente, com espaço reservado para cada parte, respeitando a idade. Informações da escola são muito úteis quando disponíveis.

Investigo o contexto: mudanças recentes na família, dinâmica escolar, situações de bullying, uso de telas e redes sociais, rotina de sono, e o padrão de resposta da família aos sintomas, que às vezes, sem intenção, acaba mantendo o ciclo de evitação.

Também avalio condições que se apresentam com quadros semelhantes ou que coexistem: TDAH, TEA, dificuldades específicas de aprendizagem, e quadros de humor.

Uma orientação para as famílias: o impulso natural diante de uma criança ansiosa é remover a fonte do desconforto (deixar de ir à festa, tirar a apresentação, autorizar a falta). Isso alivia imediatamente e, repetido, tende a ensinar que a situação era mesmo perigosa e que a evitação é a solução. Isso não significa forçar. Significa acompanhar em aproximações graduais, com apoio. É uma das coisas que mais discuto com as famílias na consulta.

Quando buscar avaliação

Se as queixas se mantêm por semanas, se a criança está deixando de fazer coisas que fazia, ou se há sofrimento visível, vale procurar. Quadros de ansiedade na infância respondem bem quando abordados cedo.