Depressão: o que diferencia de tristeza
A confusão mais comum é achar que depressão é tristeza muito intensa. Não é uma questão de grau. São coisas de natureza diferente.
A tristeza é uma emoção com objeto, proporcional ao contexto, que oscila ao longo do dia e responde a estímulos. Uma pessoa triste ainda consegue rir de algo engraçado, ainda que volte ao estado anterior em seguida.
A depressão é um quadro que se mantém na maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas, e que altera o funcionamento em várias dimensões ao mesmo tempo.
O que é avaliado
Além do humor deprimido, investigo:
- Anedonia. A perda de interesse ou prazer em atividades antes agradáveis. É frequentemente o sintoma mais indicativo, e pode aparecer mesmo em pessoas que não se descrevem como tristes.
- Sono. Insônia, com destaque para o despertar precoce, ou sono excessivo.
- Apetite e peso. Redução ou aumento significativos.
- Energia. Fadiga desproporcional ao esforço realizado.
- Psicomotricidade. Lentificação de movimentos e fala, ou agitação.
- Cognição. Dificuldade de concentração, indecisão, lentidão de raciocínio.
- Culpa. Autocrítica desproporcional, sensação de ser um peso.
- Pensamentos sobre morte. Um ponto que sempre abordo diretamente na consulta, com cuidado e sem rodeios.
Depressão nem sempre se apresenta como tristeza
Parte considerável dos pacientes chega com queixas físicas: dores, cansaço, alterações intestinais, sensação de peso no corpo. Outros chegam com irritabilidade, especialmente homens e adolescentes. Outros ainda descrevem vazio ou anestesia emocional, e não tristeza. Reconhecer essas apresentações evita anos de investigação sem conclusão.
O que também precisa ser investigado
Diversas condições clínicas produzem quadros semelhantes e são potencialmente reversíveis: hipotireoidismo e outras alterações hormonais, deficiência de vitamina B12, de vitamina D e de ferro, anemia, doenças inflamatórias, efeitos de medicações em uso (incluindo alguns anti-hipertensivos, corticoides e contraceptivos), uso de álcool e outras substâncias, e apneia do sono.
Quando buscar avaliação
Se os sintomas se mantêm por mais de duas semanas, se há perda de interesse pelo que antes importava, ou se o funcionamento cotidiano ficou comprometido, vale procurar avaliação. Se existirem pensamentos de morte ou de se machucar, a busca por ajuda não deve ser adiada. Em situação de crise, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia.
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