Epilepsia: nem toda crise é convulsão
O que é epilepsia
A epilepsia envolve a predisposição a crises recorrentes decorrentes de atividade elétrica anormal e sincronizada de grupos de neurônios. Uma crise isolada, em contexto de febre alta, distúrbio metabólico ou abstinência, não caracteriza epilepsia.
As manifestações variam muito
A imagem popular é a crise tônico-clônica generalizada, com perda de consciência, rigidez e movimentos. Ela existe e é a mais reconhecida, mas está longe de ser a única.
Existem crises focais com preservação da consciência, em que a pessoa permanece desperta e experimenta sensações súbitas e estereotipadas: um cheiro que não está presente, uma sensação ascendente no abdome, formigamento em uma região, alteração visual, ou uma sensação intensa de familiaridade ou de estranhamento.
Existem crises focais com alteração da consciência, em que a pessoa parece ausente por segundos ou minutos, com olhar parado e movimentos automáticos como mastigar, mexer as mãos ou repetir palavras, sem memória do episódio.
E existem as crises de ausência, mais comuns na infância, com interrupção breve da atividade, frequentemente confundidas com desatenção em sala de aula. Essas apresentações passam anos sem diagnóstico, justamente por não corresponderem à expectativa.
O que é avaliado
A caracterização detalhada dos episódios é o centro do processo: o que acontece antes, durante e depois, duração, frequência, horário, e o relato de quem presenciou. O vídeo feito por um familiar, quando existe, costuma ser mais informativo do que qualquer descrição.
Também são investigados fatores desencadeantes, com destaque para privação de sono, uso de álcool, estresse e uso irregular das medicações, além de história de eventos neurológicos prévios e história familiar. A investigação envolve eletroencefalograma e exames de imagem, conduzidos pela neurologia.
Onde entra a minha atuação
O tratamento de base da epilepsia é conduzido pelo neurologista assistente. Minha atuação nesses casos é complementar e articulada com essa equipe, e se concentra em três frentes.
A primeira é o cuidado dos aspectos psiquiátricos frequentemente associados. Depressão e ansiedade são significativamente mais prevalentes em pessoas com epilepsia, e costumam receber menos atenção do que merecem. Isso tem impacto direto na qualidade de vida e na adesão.
A segunda é o sono, que é ao mesmo tempo fator desencadeante e área frequentemente comprometida.
A terceira é a discussão, em casos selecionados e refratários, sobre a modulação do sistema endocanabinoide como parte do plano, sempre em conjunto com o neurologista responsável e dentro das normas do CFM e da Anvisa. Essa discussão envolve o que a evidência sustenta, interações com as medicações anticrise em uso, riscos e acompanhamento necessário.
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