Como o acúmulo acontece

Poucos pacientes chegam com uma prescrição pensada como um todo. O que costuma existir é uma sequência histórica: uma medicação iniciada há anos por insônia, outra acrescentada por ansiedade em um momento difícil, um ajuste feito em uma consulta de urgência, um segundo item somado porque o primeiro não resolveu (sem que o primeiro tenha sido retirado), uma medicação prescrita para um efeito adverso de outra medicação.

Cada decisão isolada fez sentido no seu momento. O conjunto, dez anos depois, frequentemente não faz.

O que reviso em cada item

Atenção especial a algumas classes

Benzodiazepínicos merecem destaque. São eficazes no curto prazo e frequentemente mantidos por anos, com tolerância, dependência, e riscos relevantes de queda e de alteração cognitiva, especialmente em idosos. A retirada, quando indicada, precisa ser gradual e planejada, e sintomas de abstinência mal conduzidos são a principal razão pela qual tentativas anteriores fracassaram.

Anticolinérgicos, muitos deles de venda comum, também acumulam efeito cognitivo relevante.

Como o ajuste é feito

Uma alteração por vez, sempre que possível, para permitir avaliar o efeito de cada mudança. Redução gradual, com cronograma definido. Orientação clara sobre o que esperar e sobre o que fazer se algo mudar. Reavaliação em intervalos combinados.

Revisão não significa retirar. Em parte dos casos, a conclusão é manter, e às vezes ajustar para cima. O objetivo é que cada item da lista tenha uma justificativa atual.

Uma orientação essencial: nenhuma medicação psiquiátrica deve ser suspensa por conta própria, mesmo quando parece não estar fazendo efeito. Interrupções abruptas podem produzir sintomas de retirada e desestabilização do quadro.

Quando essa conversa faz sentido

Se você usa três ou mais medicações, se alguma delas foi iniciada há anos sem revisão, ou se convive com efeitos adversos que nunca foram discutidos, vale trazer a lista completa para uma consulta dedicada a isso.